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LOGÍSTICA APROFUNDADA AINDA É ESCASSA NA CONSTRUÇÃO CIVÍL

Embora ainda deixe a desejar, a logística nos canteiros de obras já começa a ser implementada, como forma de minimizar custos e aumentar a eficiência. Sem contar o fato de ser um elemento fundamental para enfrentar o aumento da concorrência, em razão da boa fase pela qual passa o setor.

Apesar da boa fase pela qual passa o setor de construção civil, algumas partes do processo de crescimento, como uma boa logística implementada durante todo o processo de construção, inclusive nos canteiros de obras, ainda deixam a desejar. Partes fundamentais de qualquer projeto e que deveriam receber atenção especial em planos logísticos, os canteiros ainda sofrem com poucas estratégias que busquem otimizar o trabalho da mão de obra ante a diminuição de desperdícios comuns durante a construção.

Ao longo dos anos se percebeu uma intenção pouco maior em reorganizar as diversas fases dos projetos de construção de obras, sejam grandes ou pequenas, por meio de logísticas bem estudadas e aplicadas. A competitividade entre as empresas, fruto de fatores como a maior exigência em qualidade por parte dos clientes e escassez de financiamentos, obrigou as companhias a começarem a pensar, mesmo que ainda muito lentamente, em soluções para conquistar o mercado consumidor, buscando profissionais como projetistas de canteiros.

“Um grande salto na melhoria da construção e, consequentemente, dos canteiros de obra foi a revisão da NR-18 (Norma Regulamentadora 18), em 1995. Com a criação do PCMAT – Programa de Condições do Meio Ambiente de Trabalho, as empresas passaram a ser orientadas a fazer o projeto inicial do canteiro de obras – que era até então, praticamente, não utilizado. Com a NR-18, este documento passou a ser obrigatório para canteiros com mais de 20 trabalhadores, difundindo a cultura de pensar antecipadamente o local de trabalho, prevendo e distribuindo especialmente as áreas de vivência, de produção, de armazenamento, de circulação, de administração, etc.”, conta Sheyla Serra, professora do curso de Engenharia Civil e da pós-graduação em Construção Civil da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

No entanto, a visão logística presente nos canteiros de obra ainda é considerada muito amadora. De acordo com Rosana de Freitas, engenheira civil e professora no curso de Engenharia de Produção Civil da Universidade do Estado da Bahia e do curso de MBA em Qualidade das Construções da Unifacs, o gestor logístico aparece mais como um síndico nos canteiros, atuando como disciplinador de trânsito, e não como um especialista no tema. “A logística no canteiro de obras ainda é tratada apenas como operação de movimentação, e os gestores desconhecem a importância do fluxo de informação nesse processo. Esse é o grande gargalo logístico nos canteiros. Os controles são ineficazes porque as informações não circulam e os estudos são pouco consistentes”, explica Rosana. “Continuamos restritos às sobras dos equipamentos e ferramentas desenvolvidas para a indústria, tendo que fazer adaptações para atender às necessidades dos canteiros. Também é possível verificar que os fornecedores e a indústria não estão atentos para as necessidades dos canteiros de obras. Paletes com variação de padrão e cargas elevadas dificultam ou impossibilitam a movimentação das cargas unitizada, exigindo mão de obra para desmontar e remontar paletes e garantir a movimentação dos materiais”, completa.

Para Sheyla, a evolução encontrada no setor em relação à logística em canteiros não ocorre de maneira igual em todo o território brasileiro. As maiores evoluções se encontram centralizadas nos grandes centros, grandes cidades. “Nas obras de grande porte, principalmente indústriais e infraestrutura, podemos perceber que as empresas estão evoluindo cada vez mais na questão da implantação dos processos logísticos. Em obras de médio e pequeno porte é que as construtoras, em sua maioria, ainda não perceberam que um canteiro bem planejado é a chave para uma obra realizada com qualidade, produtividade, segurança e sem desperdícios. Ainda encontramos muitos canteiros improvisados e concebidos sem qualquer critério”, analisa Adriano Lucio da Rocha, graduado em logística e especialista em Engenharia Civil e Sistemas Construtivos de Edificações.

Dentro desse panorama de evolução lenta, muitas vezes se questiona a real necessidade de uma logística bem aplicada, principalmente nos canteiros de obras. “Para se ter uma idéia, no Japão, por exemplo, são gastos 2/3 do tempo de um empreendimento com o projeto e 1/3 com execução. No Brasil esses fatores são invertidos”, afirma Helio Flavio Vieira, engenheiro civil e doutor em logística e transporte. No entanto, a logística em canteiros é fundamental para se obter bons desempenhos de produtividade e cumprimento de prazos, minimizando custos e geração de entulhos, e desperdício de material, atingindo excelência de qualidade no produto final. “A aplicação de uma gestão logística eficiente em um canteiro de obras elimina todas as deficiências na gestão dos processos construtivos e da mão de obra aplicada, visando o aumento da produtividade e diminuindo os desperdícios”, segundo Rocha.

Até mesmo para contornar imprevistos comuns em construções a logística representa uma saída ideal. Por meio da criação de indicadores e ferramentas de desempenho pode-se modificar e aprimorar procedimentos antes julgados ideais para o projeto. “O estudo logístico em um canteiro de obras é determinante para garantir a produtividade e segurança dos serviços. A adequação e o estudo das áreas de armazenamento e o estudo do fluxo de materiais, equipamentos e pessoal são determinantes para o cumprimento dos prazos, a redução de retrabalhos e horas improdutivas”, completa Rosana, da Universidade do Estado da Bahia

Funções da logística em canteiros de obra

Dentre outros problemas que podem ser solucionados ou minimizados com um planejamento logístico eficaz estão redução de distâncias na movimentação de pessoas, materiais e equipamentos, por meio de um planejamento de layout de canteiro adequado; redução de perdas através da diminuição de movimentação e planejamento dos locais de armazenagem; redução de armazenagens e descontinuidade da obra através de sistemas de parcerias com fornecedores. “Quando a obra não tem um planejamento logístico, as consequências extrapolam os limites do canteiro. Basta estar atento às cercanias das obras, com caminhões tomando a rua, obstruindo acessos, ocupando os espaços dos pedestres e impossibilitando a circulação de veículos, gerando o caos. Com tantos problemas, o reflexo negativo financeiro vai aparecer e os engenheiros vão passar a atuar como bombeiros, apagando incêndio”,  comenta a professora no curso de Engenharia de Produção Civil da Universidade do Estado da Bahia.

“O processo de planejamento e organização logística do canteiro de obras pode proporcionar inúmeras vantagens, como obter a melhor utilização do espaço físico disponível, de forma a possibilitar que homens e máquinas trabalhem com segurança e eficiência, principalmente através da minimização das movimentações de materiais, componentes e mão de obra. Todos esses aspectos proporcionam uma maior qualidade à construção”, acrescenta Rocha.

Segundo Sheyla, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a logística pode proporcionar transparência aos fluxos físicos, como transporte de materiais e circulação de pessoas e equipamentos, através de ferramentas para registrar, visualizar e analisar os dados sobre a produção. Os gráficos, as imagens, as plantas, os diagramas de processos e mapofluxogramas podem ser utilizados como fontes de informações para auxiliar na tomada de decisão com base em dados e fatos observados no canteiro, discutidos em reuniões de planejamento. Além disso, os diagramas de processos e mapofluxogramas podem ajudar na realização de simulações em planta para analisar e melhorar a forma de desenvolvimento dos trabalhos, através da eliminação de práticas que contribuem para a ocorrência de perdas e da identificação de sequências de produção mais eficientes.

Etapas da logística

Os planejamentos logísticos são muito particulares de acordo com o tamanho de cada uma. Investimentos em recursos, prazos e fornecedores são organizados segundo os objetivos e portes de cada obra. Outro fator a ser levado em consideração para o planejamento logístico são as limitações estabelecidas pela legislação e exigências normativas que cada tipo de projeto, desde prédios até aeroportos, possui.

Para Vieira, o planejamento logístico deve minimizar interferências, facilitando o fluxo produtivo, por meio da definição de processos, tecnologias construtivas e materiais, com objetivo de minimizar custos e aumentar a eficiência.

Na construção civil, o planejamento pode ser dividido em algumas etapas. De acordo com Rosana, da Universidade do Estado da Bahia, a gestão logística deve começar na concepção do projeto, avaliando os acessos, disponibilidade dos equipamentos, limitações determinadas na área de desenvolvimento da obra, relacionadas a suprimentos, transporte, comunicação, e os limites de orçamento. A segunda fase consiste em definir acessos, equipamentos e áreas de produção e vivência para garantir que trabalhadores e equipamentos não dividam acessos, além de garantir que os pontos de descarregamento de materiais estejam posicionados pensando em otimizar o transporte horizontal e vertical,  e que as atividades de produção não sejam interrompidas por gargalos logísticos. Nessa etapa, decisões como implantação de central de concreto, posto de abastecimento, unidade de britagem e central de esquadria devem ser feitas.

A terceira etapa é quantificar materiais definindo o ciclo logístico de aquisição, recebimento, armazenamento e distribuição, com estudo das possibilidades do descarregamento do material diretamente no ponto de consumo, para agilizar a distribuição e reduzir os custos de armazenamento. A fase final envolve ajustes e correções de rumo e adequação das mudanças necessárias.

Profissionais envolvidos

A falta de profissionais qualificados no mercado ainda é um grande problema para o setor de construção civil. Com a baixa desses profissionais, as empresas se viram obrigada a elevar os salários para manter seus empregados e atrair novos funcionários.

Dados do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que o nível de emprego formal na construção civil subiu 10,9% no primeiro trimestre de 2011, em relação a igual período do ano anterior, com 86.216 novos contratados.

Dentro dos canteiros de obras, o perfil do profissional que irá trabalhar com a logística deve ser bastante heterogêneo. Todos os profissionais envolvidos, desde o engenheiro civil ou de produção, responsável pela logística do canteiro, até o técnico que irá realizar a representação espacial do canteiro, a partir das diretrizes definidas pelo gestor da obra, devem estar a par dos objetivos, metas e cronogramas da obra.

Expectativas de melhorias logísticas nos canteiros

A expectativa de evolução para a logística nos canteiros é grande. Com a demanda por obras de construção civil em todo país, a competitividade deverá se acirrar e forçar as empresas a buscarem a excelência que somente será atingida com um canteiro de obras bem planejado. Os empresários do setor preveem aumento da atividade, de emprego, de novos empreendimentos e serviços, além da compra de matérias-primas e insumo.

Histórias de mudanças nas visões logísticas em canteiros já começam a surtir efeito no mercado. “Tenho conhecimento de um importante estudo em empresa construtora em São Paulo que contratou uma empresa especializada em logística para fazer a organização do estoque e controle de entregas dos materiais no canteiro e nos pavimentos do edifício. Foi uma revolução no canteiro. Foi preciso programar os sistemas de entrega em função dos equipamentos colocados no canteiro e suas características de transporte, capacitar os operários para os novos equipamentos e criar um sistema eficiente de informações. A partir dessa experiência começou-se a criar a cultura da logística, capacitando, inclusive, um operador logístico num ramo que não era dele”, conta Sheyla.

Mesmo assim, ainda existe resistência no mercado em relação ao assunto. “Ao passo que é visível uma atenção maior para as empresas relacionadas ao tema, são inegáveis as dificuldades de contratação de mão de obra, impulsionando uma ousadia que, muitas vezes, desliza na irresponsabilidade, pela contratação de profissionais mal preparados. Precisamos executar obras com prazos apertados, cada vez mais complexas, mas a mão de obra continua pouco desenvolvida e os equipamentos necessitam ser estudados especificamente para o segmento. Essa mistura de fatores acaba levando o risco para aqueles que atuam nos canteiros e circulam pelas proximidades, além dos conflitos relacionados à ocupação dos espaços. Necessitamos ampliar o olhar mirando o desenvolvimento, mas por trás disso tudo também existe um medo do empresário em investir em tecnologia, em estudos específicos e não obter um retorno financeiro em curto prazo”, conclui Rosana, da Universidade do Estado da Bahia.

 


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